quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Diário gráfico - Gente

Numa das páginas, o meu filho. Na outra, Manuel Malhado, poeta popular de Vila Nova de Paiva, que entretanto nos deixou...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Encomendas de Natal

Uma família Romena...
Outra família...no elevador.
Ao longo destes últimos anos tenho desenhado inúmeras actividades para famílias em diferentes contextos, isto porque acho este núcleo, nas diferentes composições que apresenta na sociedade actual, o lugar ideal para novas aquisições culturais a par das outras que os pais transmitem, afirmando “ser só intuição e bom senso”. A parafernália de meios lúdicos áudio visuais, analógicos ou virtuais não preenche na totalidade o espaço de comunicação humana, tão importante para uma sociedade saudável que opera sobre si mesma profundas mutações em direcção ao futuro. Desta forma, elegemos a Biblioteca Pública como espaço de encontro das famílias, descoberta e fruição da colecção que dispomos, propondo actividades que acrescentem outro compromisso para além do utilizador, possuidor de Cartão de leitor municipal. Citando Rui Miguel Costa (bibliotecário-BLX), “o melhor da nossa colecção são os utilizadores porque dão vida ao corpo total da biblioteca… afinal a colecção é um ser vivo. É importante saber comunicá-la ao outro, o leitor”. Foi neste sentido que surgiu a oficina “Encomendas de Natal” que reuniu algumas famílias em volta de embalagens de correio verde (sem limite de peso). A ideia base era enviar uma encomenda, feita na biblioteca, para um amigo ou familiar que estivesse muito longe da Biblioteca do Feijó, local onde se deu este convívio. E nessas encomendas, uma espécie de contentores de afectos, poderiam caber poemas, desenhos, prendas, conchas recordando o nosso mar, fotografias, e objectos tridimensionais…houve quem enviasse flores secas para uma morada no Alentejo. Entre os destinos dessas cartas/encomendas estava uma cidade da Roménia, outra de Santiago do Cacém e ainda outra em Oliveirinha do Conde na Beira Alta…
Desarrumámos a biblioteca, vasculhando estantes, à procura de poemas para enviar e, de cola e tesoura na mão fizemos árvores de Natal a par de outros objectos curiosos. Ainda escolhemos um local da Biblioteca para nos deixarmos fotografar e colocámos no envelope a foto impressa. Fiquei muito comovido quando uma família Romena traduziu um poema meu na sua língua materna, tendo a Mãe escrito um poema aos dias passados na biblioteca, em versão bilingue. Assim se celebrou o Natal entre livros na Biblioteca José Saramago no Feijó (Almada).

domingo, 26 de dezembro de 2010

Diário gráfico: Canal

Mais um desenho do diário gráfico: toalha de praia sobre os calhaus rolados, livrito sobre os joelhos, na mão um lápis luminance preto. A Pedra da Agulha vista da praia do Canal (Arrifana)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Diário gráfico - Vila Nova de Paiva

No meio das minhas viagens pelo nosso país (sempre com o saco dos livros atrás…) têm lugar encontros especiais, onde a comunicação é o objectivo e o desenho a ferramenta. Assim, o café central de uma terra pode ser um local de amena cavaqueira ultrapassando os limites da vida corriqueira de pouco pensar e de pouco sorrir. O cadernito de desenhos sai do saco sem ser intrusivo e o gesto do desenho torna-se familiar, acabando a noite com uma partilha de vidas que fica ali suspensa a cada baforada de fumo dos cigarros: e nessa noite, não se fala de bola… Confesso que gosto de ver as pessoas saindo da casca quotidiana para uma situação não habitual , acenando essências que os caracterizam de forma mais solta. Estes dois amigos são das “Terras do demo”, Vila Nova de Paiva, sempre que volto aquelas paragens paro para os cumprimentar: ao dono e ao cliente habitual, personagem estouvado da vila.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diário gráfico - Amoreira

 
O gato não esperou pelo final do desenho...Mas a tarde passada no areal da praia da Amoreira foi fantástica. Do outro lado do rio a encosta sobe coberta de urze e muitas outras plantas que desconheço o nome (endémicas da Costa Vicentina).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Diário gráfico - Arrifana


Sobre os blocos de pedra da Calheta a minha filha desenha a Pedra da Agulha...E eu desenho o que ela desenha. Momentos nossos, quando a maré nos invade tranquilamente a Vida. 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Marcianos em Braga

Com um pouco de atraso aqui vai a notícia das “Palavras marcianas” em Braga na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Foi bastante divertido, sobretudo porque a intenção primeira dos extraterrestres era devorar os habitantes da “orbe cerúlea”… Este jogo com a língua portuguesa torna-se mais divertido quando os jovens participantes se soltam com a irreverência que os caracteriza.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um pinheiro de Natal...em Vale de Madeiros.

Passara lá pela mata e vira o seu maior pinheiro marcado com um lenço vermelho a drapejar ao vento Norte… Entendeu logo o sinal. Então, imaginou logo a cena na noite da Consoada com o seu enorme pinheiro a arder no largo fronteiro à capela e os vizinhos saídos da missa do galo a perguntar:
- Então? Quem é o desgraçado do dono do pinheiro este ano?

Quando jovem fizera exactamente o mesmo na véspera do Natal, lá em Vale de Madeiros. Escolhia-se sempre o maior pinheiro da pior pessoa da aldeia, aquela que menos respeitara as regras, não escritas, da comunidade.
Assim, pela calada da noite fria, ele e um bando de jovens estouvados haviam deitado muitos pinheiros abaixo, ao som da motosserra roendo o tronco. Um baque surdo e a grande árvore caindo no chão, revolvendo a caruma toda no meio da geada.
Agora… fora ele o escolhido, para gozo geral dos jovens que haveriam de aquecer as mãos nas brasas da sua velha árvore... E aquela gente toda saindo das orações ao Deus menino, chasqueando da sua pessoa.
Fora ficando cada vez mais seco e azedo desde a morte da sua mulher, como um choupo desfolhado pela invernia. Agarrado ao dinheiro, não pensava noutra coisa senão amealhar. E para quem? Talvez fosse uma mimosa azeda, chupando água desalmadamente. Sempre fora homem de trabalho duro, sol a sol, amealhando o pouco que a terra dava. Guardava para o Futuro: uma espécie de grande colheita destinada só a alguns eleitos que teriam lugar reservado junto ao "Supremo", no dia do deve e do haver.
A neta aparecera-lhe um dia em casa a pedir ajuda. Ele respondera que “trabalhasse, que era o que ele fazia!”. E ela saíra de rosto carregado e olhos marejados de lágrimas. Nem para a família era bom...
Bem notava os olhares na sua direcção, durante os bailes da “Associação”, lá no terreiro dos grandes eucaliptos. Se continuasse assim, pelo Carnaval, decerto lhe poriam um "pisão" na porta de casa e sabe-se lá que mais o povo da terra iria inventar..


Ficou ali parado a olhar o pano vermelho atado a uma ramada da sua árvore….
E, no silêncio da mata, pensou conversando consigo mesmo:
- Assim como assim, este já está condenado! Que o queimem...a rapaziada lá se irá divertir à volta da fogueira. Mas, quando chegar o Entrudo, hei-de convidar essa malta para beber um caneco do meu vinho, assim que escutar o som do pedregulho contra a porta do meu quintal!


Pisão: Tradição de Entrudo típica de Canas de Senhorim que consiste em amarrar um pedregulho à porta da casa da “vítima”, através de um sistema engenhoso de cordas, fazendo-a levantar da cama a altas horas da noite. Provoca sempre riso!
Associação: Clube desportivo e recreativo de Vale de madeiros onde se fazem belos bailes nas noites de Verão.
Nota: Um texto velhinho mas que me apeteceu publicar, relembrando o crepitar das lareiras na noite de Natal.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Regresso à "Cor das histórias"

"Eu sou Tu" - EPR Montijo (foto autorizada)
Recomeço amanhã com as minhas sessões de mediação da leitura e da escrita em estabelecimentos prisionais. Chegarei de manhã ao EPL (Lisboa), deixarei os meus pertences ao guarda da recepção, passarão o detector de metais pelo meu corpo e depois, o barulho de ferro do gradão. Levarei objectos perigosos no meu saco “andarilho”: Livros. Cumprindo o seu dever, o guarda investigará o conteúdo do saco. Vou conhecer um grupo novo de presos e os meus olhos tentarão logo identificar os futuros leitores entre um grupo de rapazes agitados e fustigados pelas marés da sua existência. Começarei com coisas simples, contos; depois pegarei na palavra num pingue-pongue de comunicação. Na mão, Álvaro de Magalhães (“O Brincador”), para explicar o ofício da escrita. Começa agora uma outra existência dentro da minha vida que se prolongará por um ciclo de seis sessões entre muros. Quando terminar, espero ter feito leitores e poder ler os textos lavrados na reclusão como janelas abertas aos céus. Le ciel est, par-dessus le toit,Si beau, si calme (…)” Paul Verlaine