sexta-feira, 28 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Gambozino (Wolpertinger)

"Lisboa, 1860
Querido irmão, espero que os teus estejam todos de boa saúde aí nas terras da Germânia. Mas o motivo desta minha breve missiva deve-se só à enorme necessidade de partilhar contigo os últimos desenvolvimentos das minhas pesquisas animais na “lezíria grande” de Vila Franca.
Apresentei na Academia das Ciências, com grande alvoroço dos meios académicos pensantes da nossa cidade, a minha teoria sobre a origem do Gambozino e do seu carácter migratório. Incrédulos, os meus pares escutaram a minha longa alocução bem fundamentada e, felizmente fluente, sobre as características deste animal fantástico, classificado por alguns como uma “Quimera”.
Pois esta besta da criação divina apresenta simultaneamente características de um coelho, lobo, castor, pato e veado na sua aparência morfológica. Com a captura e estudo desta criatura, que mais parece uma aberração, ficou definitivamente desvendado este mistério que tem gerado uma grande variedade de histórias da nossa tradição oral. Isto para não falar de um cem número de partidas e brincadeiras feitas nas margens dos nossos rios. Sendo um animal nocturno e de hábitos lacustres, calculas as horas de trabalho no Mouchão do Tejo de candeias acesas na demanda de tão fantástico animal: silêncio, passos seguros e gestos lestos permitiram capturar esta variedade natural que se ficou a debater dentro de um saco de serapilheira para progresso da ciência e do conhecimento universal. Pela observação do terreno ao longo das várias estações do ano, concluí que o animal se ausenta das margens dos nossos rios com o aproximar do Estio, o que vem confirmar as observações feitas na Baviera, na localidade de Ratisbona (Regensburg), na margens do belo Danúbio. Esta criatura é conhecida na Germânia pelo nome de Wolpertinger e, segundo informantes locais, só faz a sua aparição nos meses quentes de Julho e Agosto nas margens do grande rio Bávaro. Concluí, portanto, que o animal é migratório. Junto envio uma gravura a ponta seca elaborada pelo mestre gravador Miguel Horta que a criou sob as minhas rigorosas instruções.
Eis como o Gambozino da nossa infância deixou de ser uma quimera!...
O teu irmão saudoso."
Wikipedia:  http://commons.wikimedia.org/wiki/File:1996_miguel-horta-wolpertinger_1-520x290.jpg

terça-feira, 18 de maio de 2010

Topo

Foto; Miguel Horta
Quantas vezes não me questiono sobre a existência de Deus e, no entanto, a resposta pode estar ali ao lado, numa fajã distante que se estende até ao oceano. Beleza abrupta, densamente verde, pendendo das falésias vulcânicas até alcançar o azul. Na ponta da ilha de São Jorge, o Topo, vila pequena encaixada na natureza agreste em total harmonia. Três foguetes estalam no ar! Fieis, padre, mordomo da festa, “amigos” e “irmãos” vêm subindo a rua íngreme sob a toada ensaiada da banda com seus metais reluzentes e estandartes drapejando ao vento Sul. É dia de festa, vestem todos a rigor: O Espírito Santo vai ser coroado pelos meninos, lá no Império do cimo da rua, impecavelmente conservado de cores garridas brilhando na luz primaveril. Pendem colchas trabalhadas das varandas onde os vizinhos se debruçam para acompanhar o cortejo. À porta do café, de cigarro pendurado na boca, aqueles que não foram convidados para as Sopas do Espírito Santo espiam tamanha fartura de bolos e flores em grandes travessas que os crentes exibem calçada acima. Mãos rudes, calejadas do mar ou da lavoura trazem as insígnias. No meio da rua está uma mesa farta, a abarrotar de ofertas; cai a água benta sobre elas e todos fazem o sinal da cruz. O mordomo distribui a esmola pelos carentes da freguesia (pão, carne e vinho de cheiro). Depois avançam os meninos com suas coroas, num quadrado feito de varas, como que protegendo a santidade daquelas crianças. No interior do Império é coroado o Espírito Santo pela mão do menino sábio, como dizia Agostinho da Silva. Impossível deter as lágrimas na presença do nosso genuíno... rolam embaciando a objectiva. Sinto uma palmada nas costas: Anda rapaz! Deixa-te de lamechices e vamos às Sopas!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

Halo

"Halo": estudo e tela 
 acrílico, tecnica mista sobre tela - 180x300
Existe sempre um momento de viragem, em que tudo se reorganiza de uma forma natural cumprindo uma lógica pré-definida difícil de explanar em breves palavras. Os halos sopram sempre do nosso interior dando lógica a todo o universo criativo, reencontrando as razões primevas para a existência. Custa-me explicar o pintor que acorda comigo todas as manhãs...
Tenho um Amigo teimoso e fiel que sempre quis ver a minha obra exposta na universidade onde lecciona. Mais do que isso, acreditou na viragem, num grande "bordo" na vida colocando a barca de novo a barlavento. Assim, hoje temos uma grande peça no edifício das matemáticas da FCT/Monte da Caparica (Arquitecto Gonçalo Byrne), "Laredo" (190x390) e "Halo" na Biblioteca do campus universitário. Nada me poderia dar mais prazer do que ter um dos meus "silêncios luminosos" (como um dia o Pedro C. Reis apelidou a minha obra) fazendo companhia a leitores tranquilos. Diz Milton Nascimento em "Canção da América": "Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito"